terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

CUIDADO! Niveis de dramaticidade perigosamente altos.

Digamos que você é uma criança, uma bem feliz até, que os pais amam e passam bastante tempo com você, família estruturada, dinheiro, todas essas coisas, nenhum motivo para reclamar de nada.

Então começa, primeiro na sua casa, seu irmão digamos, começa a chamar você de coisas que você não entende, e a rir de você, talvez até seus pais briguem com ele por isso, talvez não, mas um dia você começa a entender e aprender que sua forma é motivo de piada, aprende que você é de alguma forma errado, diferente.

Não há uma melhor maneira de lidar com isso, pelo menos pra mim não houve, rir junto com eles só faz endossar que você é inferior aos outros, é uma falta de respeito e dignidade com você mesmo (não que na época qualquer criança fosse saber isso), ficar irritado só vai fazer com que eles tenham mais prazer em dizer aquelas coisas sobre você. No meu caso eu ouvia diariamente o quanto eu era gordo, primeiro em casa, do meu irmão e depois no colégio dos outros, e não dá pra dizer direito o quanto isso me marcou, mas eu me estruturei em cima disso, sabendo que na verdade eu deveria ter vergonha de ser gordo como era.

Não sei realmente se meus pais diziam que era normal, me davam apoio, provavelmente davam, mas a questão é, eles confirmavam o que meu irmão dizia quando controlavam minha alimentação, quando mostravam na prática que realmente eu não devia ser gordo, que ser gordo era um escolha minha e eu podia ser magro, era só querer, era só não comer como eu comia, porque aquele era o problema.

Mas vamos lá, quanto mais eles diziam que eu era gordo, mas eu comia, porque precisava de algo que me desse algum tipo de prazer, precisava me sentir bem, nem que fosse artificialmente, não existem muitas saídas para uma situação dessas.

Então quando você mais ou menos se acostumou já que você é gordo e que todos vão te tratar diferente por conta disso, você percebe que essa não é a única grande diferença entre vocês e os outros, algumas são pequenas, outras grandes, mas tudo parece conspirar para que você esteja de alguma forma errado.

E tipo, eu podia continuar dizendo como ser gay também me marcou, como não confiava em ninguém, como mentia compulsivamente sobre tudo pra tentar esconder qualquer verdade sobre mim, como tentava me sentir incluso, como imitava tudo o que os outros faziam, porque precisava ser igual a eles.

Mas ai que ta, eu não tinha estrutura nenhuma pra conseguir ser quem eu era, porque pra mim a grande verdade era que eu deveria ter vergonha de ser assim. O triste é que até hoje ainda sinto vergonha de ser gordo, ainda tenho que ouvir meus amigos falando o quanto isso é errado, e como eu estou feio e deveria emagrecer. Eu sei que eles não fazem por mal, só que ainda assim, isso me deixa triste.

Não é uma escolha ser gordo, emagrecer significa abdicar de um dos meus maiores prazeres, de uma das únicas coisas que sempre esteve presente e me confortou, e ainda por cima significa confirmar que todas as pessoas que até hoje me disseram que a minha gordura é um problema, que eu não deveria ser assim, todas elas estavam certas.

e agora, voltamos a nossa programação normal.

Racionalizando tudo que eu escrevi no outro post, acho que entendo porque justamente agora, depois de tanto tempo eu começo a pensar tanto no que passou. Minha teoria é a seguinte: como me sinto mal, de alguma forma eu venho (inconscientemente talvez) tentando me voltar ao ultimo momento da minha vida onde eu estava verdadeiramente feliz. Talvez de alguma maneira bem doentia, eu estou me prendendo ao ultimo momento de felicidade extrema para com isso alcançar aquele estado mais uma vez, só que isso meio que não adianta, na verdade só piora as coisas.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

despedida

Estou no clima de ouvir música triste, fumar, chorar, beber, assistir filmes que mostram que o mundo é um lugar feio e cruel. Preciso de um tapa, apertões, mordidas, talvez um murro. Quero uma dor que eu possa controlar.

Quero controle.

Preciso de um motivo pra cantar, tudo parece mais entediante do que nunca, pessoas, coisas e principalmente eu.

Preciso parar de lidar com os problemas e soluções alheias, e voltar a lidar com os meus.

Preciso desabafar.

Você. É você mesmo.

Sai de mim, por favor. Para de aparecer em músicas da Bethânia, eu gosto demais dela para ter de parar de ouvir por tua culpa. Já faz muito tempo, o bastante pra eu ter superado, o bastante pra eu ter esquecido teu cheiro, o bastante pra eu não ter medo de ter que lidar contigo. Odeio tudo que me faz lembrar, tudo. Odeio a maneira como você ainda esta presente aqui, odeio que isso aqui é na verdade escrito pra você.

Fica em mim, por favor. Você é o motivo porque eu sou apaixonado por Bethânia, ela canta sobre nós, você me trouxe ela. Já faz tanto tempo e eu não te superei, ainda consigo sentir teu cheiro, morro de medo de lidar contigo. Não consigo parar de me lembrar, não consigo parar de querer você, aqui comigo. Odeio saber que não estava pronto pra você, odeio saber que agora eu estou.



Escrito ao som de “Você”, na voz da Bethânia:


"Você que tanto tempo faz.

Você que não conheço mais.

Você que um dia eu amei demais.

Você que ontem me sufocou, de amor e de felicidade.

Hoje me sufoca de vontade.

Você que já não diz pra mim, as coisas que eu preciso ouvir.

Você que até hoje eu não esqueci.

Você que eu tento me enganar, dizendo que tudo passou.

Na realidade aqui em mim, você ficou.

Você que eu não encontro mais.

Os beijos que já não lhe dou.

Foi tanto pra você que hoje não restou.

Você que eu não encontro mais.

Os beijos que já não lhe dou.

Foi tanto pra você que hoje não restou."




Foi bom ter você aqui comigo por esse tempo todo.

Adeus, fica bem.